Bolsonaro e a imprensa

A política brasileira está sendo sacudida por mudança cultural que, lá fora e aqui, está transformando e subvertendo antigas estruturas de poder. Partidos e políticos tradicionais vão sendo substituídos por outsiders. Uma visão de mundo menos algemada pelo politicamente correto e mais conservadora perde a vergonha de se apresentar como alternativa. Jair Bolsonaro, com suas virtudes, defeitos e seu estilo “presidente mesa de bar”, soube captar o pulsar profundo da sociedade. Isso explica boa parte do seu desempenho. Passou como tanque e arrasou o antigo mapa do poder: grandes partidos encolheram, velhos caciques foram pulverizados, antigas fontes desapareceram e a esquerda está literalmente no córner.

Bolsonaro, armado de uma comunicação polêmica, está nas manchetes, nas páginas de política e nas discussões midiáticas.

Isso é ruim ou bom para o seu governo? É incompetência ou é jogada ensaiada? Será que tudo isso, aparentemente desconexo e incompreensível e até mesmo desagradável, faz parte de um jogo estudado, manifestação de uma estratégia pensada e implementada? É cedo para chegar a uma conclusão. Mantém sua militância unida e motivada, mas corre o risco de perder o importante capital representado por aqueles que querem mais governo e menos confronto, mais diálogo e menos conflito. O Brasil, não esqueçamos, é um país de consenso. Não foi só a roubalheira que fez água no projeto lulopetista de perpetuação no poder. Foi o cansaço provocado pela estratégia do “nós contra eles”.

A agressividade como forma de comunicação pode dar certo no curto prazo. Mas desgasta, e muito, numa perspectiva de médio prazo.

No mundo da pós-verdade o que importa não é objetividade dos fatos, mas a força emocional das percepções.

O presidente da República corre o risco de perder a batalha das percepções. A equipe montada por Jair Bolsonaro é muito superior aos ministérios da era petista. Tem gente séria trabalhando: Paulo Guedes, Sergio Moro, Tarcísio Gomes de Freitas, general Heleno, o porta-voz da Presidência, general Rêgo Barros, Tereza Cristina, entre outros. Não dá para comparar com ministérios de recente e triste memória. Claro, há a dúvida se os filhos se mostrarão o seu tendão de Aquiles e o risco de indevidas tentativas de interferência na Polícia Federal, no Coaf, etc. Bolsonaro tem falado demais. Produz espuma inconveniente para sua própria imagem. Mas até o momento, é justo reconhecer, o presidente não cruzou a fronteira, não feriu a lei, a constituição e o valores republicanos.

É preciso analisar o atual governo com serenidade. Estou, a cada dia que passa, evitando pendurar etiquetas simplistas numa realidade que parece complexa. Tenho procurado pensar e refletir. Com esforço de compreensão da realidade, com cabeça aberta e sem preconceitos. Creio que precisamos fugir do jornalismo de fofoca e de polêmica superficial e mergulhar na análise dos fatos. É o modo mais eficaz para cobrir um governo inusitado..

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *