Dicas de um jovem!

Dialogar é preciso. Excelentes pautas nascem de um bom bate-papo. Conversar, sobretudo com os jovens, abre a cabeça e aponta caminhos. Eles são o presente que se faz futuro. Eu, pessoalmente, converso muito. Só é capaz de opinar, sem pontificar com altivez ou fulminar com radicalismo, quem está disposto a ouvir com interesse.

Compartilho com você, amigo leitor, o texto de um jovem promissor. Gosta de escrever. Tem potencial. Envia-me suas crônicas com regularidade. Quer submetê-las ao crivo da experiência que ainda lhe falta. Batemos bons papos. É um leitor voraz. O gosto pela literatura foi estimulado por professores do colégio Catamarã, uma iniciativa educacional e pedagógica moderna e muito interessante. O texto de Lucas Brasil, meu jovem amigo, pautou este artigo.

“Em visita à Zona Franca de Manaus”, escreve Lucas Brasil, “poucas atrações capturaram tanto minha atenção quanto um instituto técnico no qual produtos eletrônicos e eletrodomésticos eram montados e testados em relação à durabilidade, resistência e outros aspectos. Em conversa descontraída com um dos engenheiros do instituto, levantei um questionamento sobre a obsolescência programada, prática adotada por empresas (geralmente multinacionais) para que a lucratividade de seus produtos seja impulsionada em detrimento de sua durabilidade. Em suma, alguns bens de consumo são produzidos para se desgastarem com facilidade, sendo substituídos e gerando mais receita para a companhia. Computadores pessoais, por exemplo, são montados para durarem 5 anos, enquanto smartphones devem durar 2 anos.

Esse problema já é suficientemente grave por si só, mas minha percepção é que a Cultura do Descarte não se restringe apenas às indústrias e ao comércio, mas atinge também um aspecto fundamental da vida humana: as relações interpessoais. Tomemos aqui como exemplo os relacionamentos românticos entre homem e mulher: namoros e casamentos.

Em épocas de Tinder, pornografia generalizada e hipersexualização, as relações também são criadas com obsolescência programada: muitos namoros nascem com número de série e data de validade. Pessoas são usadas como produtos, como meios para satisfazer uma necessidade ou aumentar conforto. Após a concretização desses objetivos, o usuário se desfaz do companheiro, partindo para o próximo e reiniciando esse ciclo interminável.

Esse descarte e reposição compulsivos acarretam muitas outras questões que influenciam muito na saúde da sociedade e da civilização como um todo: explosão da gravidez na adolescência, avanço no número de portadores de DSTs, aumento de abortos e a falta de humanidade nos relacionamentos.

Ver o parceiro como um ser humano, composto de corpo e alma, e respeitá-lo por isso, é essencial. A visão materialista resulta na percepção do homem como apenas um corpo. E, se o homem é apenas um corpo, pode ser, assim como uma garrafa de refrigerante ou um computador que pifou após um ano e meio de uso, descartado”, conclui.

Achei sensacional. Sua crônica mostra uma juventude que está na contramão das algemas politicamente corretas. Pensa e escreve com liberdade.

Ouvir os jovens é preciso!.

Pautas feitas com mais pegada

Nunca se pôs em xeque o papel essencial do instinto jornalístico. Nem eu pretendo fazê-lo agora. Como já venho reiterando há tempos neste espaço, apenas essa vibração será capaz de devolver a alma que, por vezes, percebo faltar ao trabalho das redações. O que quero é acrescentar um aspecto que julgo importante nesta discussão: na era digital, a intuição pode e deve ser apoiada pelos números.

Realidades que pareciam alheias aos negócios da mídia estão cada vez mais próximas dos veículos. É o caso do Big Data. A cada dia os acessos digitais aos portais de notícias geram quantidades incríveis de dados sobre o comportamento de nossas audiências, mas ainda não fomos capazes de enxergar o potencial que há por trás dessa montanha de informação desestruturada.

É preciso investir forte em tecnologia e não há outro caminho. Os jornais The New York Times e Washington Post, para citar algumas referências da mídia impressa, já entenderam que neste novo contexto digital produção de conteúdo e tecnologia vão de mãos dadas. Tanto que, em tempos de crise no setor, o renomado diário de Jeff Bezos parece fazer questão de andar na contramão da concorrência. Ao invés de enxugar os seus quadros, o que faz é expandir suas equipes. Mas Bezos não contrata apenas jornalistas. Busca também profissionais que, controlando ferramentas de dados, apoiem a redação, o departamento comercial e o marketing. São engenheiros, estatísticos e desenvolvedores.

Certo é que os veículos não podem assistir inertes ao avanço dessas novas tendências. Não podemos repetir a atitude que tivemos nos primórdios da internet, quando raras figuras nas redações apostavam que o ambiente multimídia tomaria a dianteira nos negócios.

Na última semana tive a oportunidade de conversar com um grupo de competentes jornalistas e gestores de veículos de comunicação, todos eles responsáveis pelo processo de transição digital em suas empresas. Vindos de diferentes Estados brasileiros e de alguns países da América Latina, eles se reuniram em São Paulo para o segundo módulo do “Estratégias Digitais para Empresas de Mídia”, programa que dirijo na ISE Business School.

Todos eles estavam desejosos de encontrar novos caminhos de monetização. Em sala de aula crescia a certeza de que as verbas publicitárias não retornarão aos níveis de antigamente e que, portanto, os ingressos deverão ser alavancados prioritariamente por meio do conteúdo digital. Como tarefa de casa, levaram um desafio nada fácil: olhar para a cobertura de seus veículos e questionar-se se há valor diferencial naquilo que estão entregando aos seus consumidores. Sabem que se a resposta for negativa poucas serão as possibilidades de monetizar esse conteúdo.

Receberam também a missão de colocar a audiência no centro do processo. Já não basta que definamos nós o que precisam os consumidores de informação. É preciso ouvir o que eles têm a dizer..