Pautas feitas com mais pegada

Nunca se pôs em xeque o papel essencial do instinto jornalístico. Nem eu pretendo fazê-lo agora. Como já venho reiterando há tempos neste espaço, apenas essa vibração será capaz de devolver a alma que, por vezes, percebo faltar ao trabalho das redações. O que quero é acrescentar um aspecto que julgo importante nesta discussão: na era digital, a intuição pode e deve ser apoiada pelos números.

Realidades que pareciam alheias aos negócios da mídia estão cada vez mais próximas dos veículos. É o caso do Big Data. A cada dia os acessos digitais aos portais de notícias geram quantidades incríveis de dados sobre o comportamento de nossas audiências, mas ainda não fomos capazes de enxergar o potencial que há por trás dessa montanha de informação desestruturada.

É preciso investir forte em tecnologia e não há outro caminho. Os jornais The New York Times e Washington Post, para citar algumas referências da mídia impressa, já entenderam que neste novo contexto digital produção de conteúdo e tecnologia vão de mãos dadas. Tanto que, em tempos de crise no setor, o renomado diário de Jeff Bezos parece fazer questão de andar na contramão da concorrência. Ao invés de enxugar os seus quadros, o que faz é expandir suas equipes. Mas Bezos não contrata apenas jornalistas. Busca também profissionais que, controlando ferramentas de dados, apoiem a redação, o departamento comercial e o marketing. São engenheiros, estatísticos e desenvolvedores.

Certo é que os veículos não podem assistir inertes ao avanço dessas novas tendências. Não podemos repetir a atitude que tivemos nos primórdios da internet, quando raras figuras nas redações apostavam que o ambiente multimídia tomaria a dianteira nos negócios.

Na última semana tive a oportunidade de conversar com um grupo de competentes jornalistas e gestores de veículos de comunicação, todos eles responsáveis pelo processo de transição digital em suas empresas. Vindos de diferentes Estados brasileiros e de alguns países da América Latina, eles se reuniram em São Paulo para o segundo módulo do “Estratégias Digitais para Empresas de Mídia”, programa que dirijo na ISE Business School.

Todos eles estavam desejosos de encontrar novos caminhos de monetização. Em sala de aula crescia a certeza de que as verbas publicitárias não retornarão aos níveis de antigamente e que, portanto, os ingressos deverão ser alavancados prioritariamente por meio do conteúdo digital. Como tarefa de casa, levaram um desafio nada fácil: olhar para a cobertura de seus veículos e questionar-se se há valor diferencial naquilo que estão entregando aos seus consumidores. Sabem que se a resposta for negativa poucas serão as possibilidades de monetizar esse conteúdo.

Receberam também a missão de colocar a audiência no centro do processo. Já não basta que definamos nós o que precisam os consumidores de informação. É preciso ouvir o que eles têm a dizer..

Fatos versus percepções

Será que o Brasil está no bico do corvo? Será que a economia está a um passo do abismo? Será que o momento atual é pior do que os anos marcados pela maior pilhagem do patrimônio público da nossa história? Nada como olhar para os fatos e não para as recorrentes profecias dos economistas de plantão. Fui atrás do noticiário. Simples assim. Confesso que foi árduo trabalho de garimpagem. Informações difíceis de encontrar, publicadas quase que com pedido constrangido de desculpa, mostram uma realidade bem menos sombria. Vamos lá, amigo leitor. Mercado Livre vai investir R$ 3 bi no Brasil em 2019 e abre centro em Cajamar, São Paulo. Investimento 50% maior do que o do ano passado será usado para logística e serviços financeiros; operação em Cajamar melhorará entregas.

Brasil vence a China e recebe nova fábrica de motor. A Fiat-Chrysler vai instalar uma nova planta em seu complexo industrial de Betim, em Minas Gerais, para começar a produzir motores turbo para o mercado nacional e para exportação. A nova linha estava sendo disputada pela fábrica do Brasil e da China. O presidente Jair Bolsonaro informou em sua conta no Twitter que o grupo anunciou investimentos de R$ 16 bilhões no Brasil até 2024. Segundo ele, trata-se do “maior ciclo de investimento da história da empresa em nosso país”. O presidente disse ainda que os investimentos devem gerar 16 mil novos empregos diretos e indiretos. Scania anuncia investimento de R$ 1,4 bilhão em fábrica de caminhões em São Paulo. Montante será aplicado entre 2021 e 2024 em São Bernardo do Campo. O grupo Carrefour Brasil prevê investimentos de R$ 2 bilhões no país e aposta em abertura de novas lojas. Segundo Noël Prioux, presidente do grupo, pelo menos 20 lojas do Atacadão serão abertas este ano.

O grupo Boa vista Energia investe R$ 1,64 bilhão em leilão para fornecimento energético de Roraima. De acordo com o Ministério de Minas e Energia, com o leilão Roraima terá 42% de energia renovável e 43% de geração de gás com projetos híbridos inéditos de biocombustível e solar. Outro destaque é que a menor participação do diesel no leilão com contratação de apenas 15% da fonte, o que torna a matriz do estado mais limpa e reduz o custo da energia que é paga por todos os brasileiros.

Grupo dono da Air Europa vai abrir empresa aérea no Brasil. Anúncio foi feito pelo ministro da Infraestrutura Tarcísio Gomes de Freitas no Twitter. Será a primeira após a publicação da medida provisória que abre o setor aéreo ao capital estrangeiro.

Empresas do Japão querem investir no Brasil, diz embaixador. Na semana em que o presidente Jair Bolsonaro isentou os japoneses da exigência do visto de turismo e de negócios, o embaixador do Japão no Brasil, Akira Yamada, disse que aumentou o número de executivos japoneses interessados em vir para o Brasil conhecer os projetos e investir no País.

A espuma da desinformação não vencerá a força dos fatos e o vigor da informação de qualidade..

Evidências condenam a maconha

Em fevereiro deste ano, uma das publicações científicas mais respeitadas do mundo, o JAMA Psychiatry, divulgou um artigo que traz uma conclusão alarmante: quem usa maconha na adolescência tem um risco maior de desenvolver depressão ou comportamento e pensamento suicida anos mais tarde. Os pesquisadores analisaram os resultados de 11 trabalhos internacionais publicados com os melhores critérios científicos, envolvendo 23.317 participantes, da juventude até a fase adulta. Eles foram divididos em dois grupos, um era composto por pessoas que consumiram maconha até os 18 anos de idade e o outro por aqueles que não fizeram uso da droga neste período. O que fizeram foi medir o impacto real da cannabis na vida dos pesquisados, utilizando sofisticadas análises estatísticas. E os resultados impressionam – de forma negativa.

Quem usa maconha na adolescência tem risco 37% maior de ter depressão na fase adulta. Estes mesmos usuários também têm 50% mais chances de apresentarem pensamentos suicidas e risco de tentativa de suicídio três vezes maior do que quem não usou maconha. Tal análise confirma vários estudos que mostram a vulnerabilidade do cérebro em sua fase de desenvolvimento, dos 15 aos 25 anos, quando exposto às drogas.

Suas características, como número de usuários, período de observação e credibilidade dos dados analisados, além da metodologia, elegem este trabalho como um dos mais relevantes já feitos, fazendo com que seja impossível ignorar tal evidência. Não se trata de achismo e sim de um trabalho científico sério.

Outro estudo recente, liderado pelo pesquisador Jordan Bechtold, também demonstrou os perigos do consumo de cannabis entre os jovens. Ele indica que o uso regular por adolescentes aumenta em 21% a chance de sintomas psicóticos persistentes. Além disso, tais jovens também têm mais riscos de desenvolverem sintomas paranoicos e alucinógenos.

O assunto é extremamente pertinente, pois aqui no Brasil estão acontecendo duas importantes iniciativas ligadas a eventual legalização. Deve ser retomado neste mês, no STF, o julgamento da descriminalização do porte de drogas para uso pessoal. Quando foi interrompido, em 2017, o ministro Gilmar Mendes votou a favor da descriminalização de todas as drogas. Luis Roberto Barroso e Edson Fachin, por sua vez, votaram pela descriminalização apenas da maconha, sendo que o ministro Barroso sugeriu a fixação de um limite de 25 gramas para a posse. Se prevalecer essa tendência as drogas serão legalizadas de fato no Brasil.

O papel do STF não é de fazer leis. A orientação da política de drogas brasileira cabe ao legislativo. As drogas matam, provocam imenso estrago na saúde pública e sequestram a esperança e o futuro de milhões de jovens. Não é assunto para ser decidido por um colegiado, sobretudo de costas para a cidadania. Encerro como comecei: as evidências condenam a maconha e as políticas públicas irresponsáveis..

A hora do jornalismo propositivo

Bolsonaro não morre de amores pela imprensa. É um fato. Parece acreditar, equivocadamente, que as redes sociais são a bola da vez. Esquece que a agenda pública continua sendo determinada pelas empresas jornalísticas tradicionais. O que você conversa com os amigos, goste ou não, foi sussurrado por uma pauta de jornal. As redes sociais reverberam, multiplicam. Mas o pontapé inicial é dado por uma reportagem. Bolsonaro precisa conversar com a mídia. As críticas aos governantes, mesmo injustas, fazem parte do jogo.

Creio, no entanto, que Bolsonaro tem enviado mensagens pacificadoras. O café da manhã do presidente da República com jornalistas foi uma boa iniciativa. Estive em um deles. O papo foi solto. Começou às 8h30 e esticou até 9h30. Foram feitas perguntas incômodas, algumas com contundência, e o presidente respondeu numa boa. Eu mesmo questionei o distanciamento do presidente da mídia e sua obsessão com as redes sociais. Ele reconheceu o equívoco de algumas “caneladas” e manifestou o desejo de conversar. Acho, sinceramente, que há um empenho de abertura. Alguém se lembra quantas coletivas de imprensa foram dadas no longo reinado de Lula e Dilma?

Mas nós da imprensa, talvez ressentidos com o estilo polêmico do presidente, sobretudo com a agressividade dos seus filhos, não estamos captando os sinais do governo. Por isso, temos sido excessivamente críticos com uma administração que está nos começos e carregando uma herança para lá de incompetente, corrupta e irresponsável. Um governo só pode ser avaliado depois que se constate se as coisas melhoraram ou pioraram em consequência das decisões que pôs em prática. Tem gente séria trabalhando: Paulo Guedes, Sergio Moro, Tarcísio Gomes de Freitas, general Heleno, entre outros. O porta-voz da presidência, general Rêgo Barros, entende o nosso trabalho e colabora com as nossas demandas. Não dá para comparar com ministérios de recente e triste memória. É necessário superar o clima de Fla x Flu e encontrar o ponto de equilíbrio: respeito e independência.

Os leitores, com razão, manifestam cansaço com o tom sombrio das nossas coberturas. É possível denunciar mazelas com um olhar propositivo. Pensemos, por exemplo, na ignominiosa situação do saneamento básico. É preciso reverter um quadro que agride a dignidade humana, envergonha o Brasil e inviabiliza o futuro de gerações. Não seria uma bela bandeira, uma excelente causa a ser abraçada pela imprensa? Ao invés de ficarmos reféns do disque-disque, das intrigas e da espuma que brota nos corredores de Brasília, e que não são rigorosamente notícia, mergulhemos de cabeça em pautas que, de fato, ajudem a construir um país que não pode continuar olhando no retrovisor.

A internet, o Facebook, o Twitter e todas as ferramentas que as tecnologias digitais despejam a cada momento sobre o universo das comunicações transformaram a política e mudaram o jornalismo. Queiramos ou não.

Nós, jornalistas, devemos escrever para a classe média. Nela reside o alicerce da estabilidade democrática. O que segura o Brasil é o cidadão comum. É o trabalho honrado e competente. É o empreendedorismo que consegue superar o terreno minado pela incompetência. É o empresário que toca o negócio e não dá propina. Sou otimista. Apesar de tudo..

Empoderamento feminino e santidade

O Jornalismo é movido pelo extraordinário, pelo curioso, pelo episódio inusitado que, não poucas vezes, grita ao nosso lado. Mas para ouvi-lo é preciso descer à arena, ir ao combate à procura dos fatos que mereçam ser contados.

A vida felizmente é mais rica e, muitas vezes, aí, o espetacular não é definido unicamente pelos critérios de noticiabilidade. Ao nosso lado, todos os dias, transitam um incalculável número de heróis anônimos que, sem receberem uma fagulha da pirotecnia midiática, luzem por si só. Suas histórias permanecem ocultas, desconhecidas pelo grande público. Mas, ao seu redor a vida prospera. Sem que percebam, cumprindo com fidelidade seus compromissos cotidianos, tocam e, deixam por herança, algo realmente esplêndido.

Esplêndida assim foi a vida de Guadalupe Ortiz de Landázuri, uma mulher que, movida pela consciência sobre o papel feminino na sociedade, colocou-se à frente de seu tempo. Fiel do Opus Dei falecida em 1975, ela é a primeira entre os membros leigos da Prelazia a subir aos altares. A cerimônia de beatificação ocorreu no dia 18, em Madri, sua cidade natal.

A história de Guadalupe parece-me ganhar maior relevância num momento em que a bandeira do empoderamento feminino tremula alto e ali, com razão, deve permanecer. Seu vigor vanguardista, a fez buscar novos desafios em ambientes geralmente pouco favoráveis. Na década de 1930, quando as vozes feministas ainda não ressoavam nas ruas da tradicionalíssima Europa, ela ingressou na universidade. Um projeto, em si, ousado, dado que, na época, as mulheres representavam apenas 14% do total de alunos matriculados em cursos superiores na Espanha. Mas o arrojo de Guadalupe foi além. Escolheu a graduação de Ciências Químicas quando mais da metade das estudantes optava pelo curso de Filosofia e Letras. Estava numa turma predominantemente masculina, na qual, dos 70 inscritos, apenas 5 eram mulheres. Finalizou o doutorado em 1965, foi docente, pesquisadora e catedrática.

Nessa época, quando a perspectiva da emancipação feminina causava estranheza e desconfiança em alguns, São Josemaría já sonhava e fazia sonhar com o dia em que as mulheres da Prelazia estariam à frente de escolas agrícolas, onde se ensinariam ofícios às trabalhadoras do campo, de clínicas médicas, de editoras de livros, de instituições universitárias. Insistia também que a seção feminina do Opus Dei deveria ter autonomia para dirigir suas próprias iniciativas apostólicas.

Não há como negar que vivemos em um mundo doente. Construímos -você e eu- uma sociedade movida pela aparência, pelo postiço. E nunca tivemos rodeados de tanta depressão e angústia, de tanta amargura e desgosto. Gente de todas as idades atingidas pela praga moderna de uma vida sem sentido.

Arrisco-me dizer que o remédio para a imensa maioria dos casos é aterrissar na vida real. É saudável entender que nossas jornadas não estão, nem nunca estarão, recheadas de momentos e feitos espetaculares. O amor ao ordinário nos abrirá o caminho para o extraordinário. Assim como fez Guadalupe..

Glamourização ideológica das drogas

Ruy Castro, o brilhante autor de O Anjo Pornográfico e Chega de Saudade, livros obrigatórios para quem gosta de um belo texto, costuma acertar no alvo. Em sua coluna na Folha de S.Paulo, mais uma vez, foi preciso, corajoso e politicamente incorreto. Ao comentar a Política Nacional de Drogas do governo que investirá na abstinência do usuário, em vez da redução de danos, Castro fechou com a proposta. Armado de uma sinceridade afiada, fruto da experiência vivida e sofrida, não faz concessões.

Considera um equívoco, marca registrada da política de redução de danos, a referência aos usuários cujo grau de dependência seja mais baixo. “Na condição de dependente químico que se tratou há 31 anos e tem se mantido à distância dos produtos, aprendi, comigo mesmo e com usuários e dependentes com quem convivi, que as duas categorias não formam uma mesma pessoa. Um usuário pode passar a vida usando sua droga em quantidade razoável para seu organismo -e apenas para este- sem se tornar dependente. Mas, se a dependência se instalar -ou seja, se o organismo passar a exigir a droga para se manter estável-, não haverá mais possibilidade de autocontrole”. E conclui, carregado de realismo e com uma chispa de ironia: “Bater papo com o terapeuta no consultório e continuar bebendo ou cheirando só fará bem ao terapeuta”. É isso aí. Rigorosamente.

Transcrevo o depoimento de um adicto recuperado. Ele fala com a força e a sinceridade de quem esteve no fundo do poço: “Sou filho único. Talvez porque meus pais não puderam ter outros filhos, me cercavam de mimos e realizavam todas as minhas vontades. Aos 12 anos comecei a fumar maconha, aos 17 comecei a cheirar cocaína. E perdi o controle. Fiz um tratamento psiquiátrico, fiquei nove meses tomando medicamentos e voltei a fumar maconha. Nessa época já cursava Medicina e convenci meus pais de que a maconha fazia menos mal que o cigarro comum. Meus argumentos estavam alicerçados em literatura e publicações científicas. Eles mal sabiam que estavam sendo enganados, pois, além de cheirar, também passei a injetar cocaína e dolantina, que é um opiáceo. Sofri uma overdose e somente não morri porque estava dentro de um hospital, que é o meu local de trabalho”.

“Após esta fatalidade”, continua, “decidi me internar numa comunidade terapêutica e hoje, graças a Deus, estou sóbrio. O uso moderado de maconha sempre acabava em drogas injetáveis. Somente a sobriedade total, inclusive do álcool, me devolveu a qualidade de vida que não pretendo trocar nem por uma simples cerveja ou uma dose de uísque” ( A.S.N., médico, ex-interno da Comunidade Terapêutica Horto de Deus, Taquaritinga).

Observa-se, na contramão da realidade, um crescente movimento a favor da descriminalização das drogas, sobretudo da maconha. Bandeira frequentemente agitada em certos setores do entretenimento e em alguns redutos de profissionais da saúde pública, a descriminalização não ajudará nada. Ao contrário.

A prevenção e a recuperação, guindadas à prioridade da Política Nacional de Drogas, merecem o apoio de todos nós..

Informação versus fake news

Proliferam notícias falsas nas redes sociais. Todos os dias. São compartilhadas acriticamente com a compulsão de um clique. Fazem muito estrago. Confundem. Enganam. Desinformam. A mentira, por óbvio, precisa ser enfrentada. O antídoto não é o Estado. É a poderosa força persuasiva do conteúdo qualificado. É preciso apostar na qualidade da informação. As rápidas e crescentes mudanças no setor da comunicação puseram em xeque os antigos modelos de negócios. A dificuldade de encontrar um caminho seguro para a monetização dos conteúdos multimídia e as novas rotinas criadas a partir das plataformas digitais produzem um complexo cenário de incertezas. Vivemos um grande desafio e, ao mesmo tempo, uma baita oportunidade.

É preciso pensar, refletir duramente sobre a mudança de paradigmas, uma vez que a criatividade e a capacidade de inovação -rápida e de baixo custo- serão fundamentais para a sobrevivência das organizações tradicionais.

Mas é preciso, previamente, fazer uma autocrítica corajosa a respeito do modo como nós, jornalistas e formadores de opinião, vemos o mundo e da maneira como dialogamos com ele.

Antes da era digital, em quase todas as famílias existia um álbum de fotos. Lembram disso? Lá estavam as nossas lembranças, os nossos registros afetivos, a nossa saudade. Muitas vezes abríamos o álbum e a imaginação voava. Era bem legal.

Agora fotografamos tudo e arquivamos compulsivamente. Nosso antigo álbum foi substituído pelas galerias de fotos de nossos dispositivos móveis. Temos overdose de fotos, mas falta o mais importante: a memória afetiva, a curtição daqueles momentos. Algo análogo, muito parecido mesmo, se dá com o consumo da informação. Navegamos freneticamente no espaço virtual. Uma enxurrada de estímulos dispersa a inteligência. Ficamos reféns da superficialidade. Perdemos contexto e sensibilidade crítica. Penso que há uma crescente nostalgia de conteúdos editados com rigor, critério e qualidade e ética.

Jornalismo sem alma e sem rigor. É o dignóstico de uma perigosa doença que contamina redações, afasta consumidores e escancara as portas para os traficantes da mentira. O leitor não sente o pulsar da vida. As reportagens não têm cheiro do asfalto.

Politização da informação, distanciamento da realidade e falta de reportagem. Eis o tripé que corrói a credibilidade. A informação não pode ser processada em um laboratório sem vida. Falta olhar nos olhos das pessoas, captar suas demandas legítimas. Gostemos ou não delas. A velha e boa reportagem não pode ser substituída por torcida.

É preciso recuperar o entusiasmo do “velho ofício”. É urgente investir na formação e qualificação dos profissionais. O jornalismo não é máquina, embora a tecnologia ofereça um suporte importantíssimo. O valor dele se chama informação de alta qualidade, talento, critério, ética. O consumidor precisa sentir que o jornal é parceiro na sua aventura cotidiana. Fake news se combate com informação..

Imprensa diante de governos disruptivos

A política brasileira está sendo sacudida por uma mudança cultural que, lá fora e aqui, está transformando e subvertendo antigos modelos e estruturas de poder. Partidos e políticos tradicionais vão sendo substituídos por outsiders. Multiplicam-se as surpresas. O fenômeno revela o esgotamento das ideologias dominantes e uma clara mudança do pêndulo da história. Segundo lideranças da política de sempre, a eleição de Bolsonaro só se explica pela presença de um forte sentimento antipetista. A interpretação é verdadeira. Mas só em parte.

Jair Bolsonaro, com suas virtudes e defeitos, soube captar o pulsar profundo da sociedade. O Brasil real estava algemado pela interdição da ideologia. Sua mensagem -na política, na economia, na segurança pública, na defesa da família e dos valores- foi ao encontro de um sentimento latente na alma nacional. Isso explica boa parte do seu desempenho. Sem dinheiro, sem partido, sem televisão e sem apoio mediático, Bolsonaro transformou-se num fenômeno eleitoral. Passou como um tanque e arrasou o antigo mapa do poder: grandes partidos encolheram, velhos caciques foram pulverizados, antigas fontes desapareceram e a esquerda está literalmente no córner.

As redes sociais tiveram papel decisivo. Bolsonaro falou diretamente com o eleitorado. Rompeu a intermediação das empresas de comunicação. Agora, sentado na cadeira presidencial, continua na mesma toada. A perplexidade é grande. Alguns vislumbram nas idas e vindas do presidente, nas suas declarações polêmicas e provocativas, no seu modo aparentemente atordoado de dialogar com o Congresso, uma evidência de seu despreparo.

No entanto, Bolsonaro está nas manchetes, nas páginas de política e nas discussões mediáticas. É estrela. Criticado ou apoiado. Todos os dias. Isso é ruim ou bom para o seu governo? É incompetência ou é jogada ensaiada? Será que tudo isso, aparentemente desconexo e incompreensível, faz parte de um jogo estudado, manifestação de uma estratégia pensada e implementada? O que parece bagunça e impulsividade, algo que incomoda e irrita, não estará no cerne de um novo estilo de fazer política? É cedo para chegar a uma conclusão. Mas é preciso refletir.

As polêmicas públicas de Bolsonaro com Rodrigo Maia acabaram produzindo um saldo interessante: o estranhamento terminou em abraços, o receio de que a reforma da previdência fosse para o brejo uniu divergências, o empresariado saiu da zona de conforto e foi à luta.

Não estaremos diante de um governo que acredita na polêmica e confronto como forma de superação de situações cristalizadas pela força da ideologia? Não sei. Estou, a cada dia, evitando pendurar etiquetas simplistas numa realidade complexa. Será que os generais do núcleo duro do governo, reconhecidamente sérios e competentes, entrariam numa roubada? Tenho procurado pensar e refletir. Com esforço de compreensão da realidade, com cabeça aberta e sem preconceitos. É preciso ponderar e refletir, que são a proposta deste artigo..

Algema pornográfica

A pornografia é negócio poderoso, crescente e devastador. Causa dependência, desestrutura a afetividade, desestabiliza a família e passa pesada fatura no campo da saúde mental. Mas o mais grave, de longe, é a estratégia de “mesmitificação”do material pornográfico. Eliminou-se o carimbo de proibido. Superou-se o constrangimento da vergonha. Deu-se ao conteúdo pornográfico um toque de leveza, de algo sexy, divertido e moderno. Na prática, no entanto, a pornografia tem a garra da adicção e as consequências psicológicas, afetivas e sociais do vício mais cruel.

A Universidade de Princeton promoveu importante seminário interdisciplinar sobre o impacto da pornografia na sociedade atual. A partir da divulgação de dados, pesquisas e informações compartilhadas no encontro, as pesquisadoras norte-americanas Mary Eberstadt e Mary Anne Layden produziram um relatório publicado no livro “Os custos sociais da pornografia: oito descobertas que põem fim ao mito do ‘prazer inofensivo'”, lançado no Brasil pela editora Quadrante, São Paulo. Recomendo a leitura.

Na era da internet a pornografia invadiu computadores, implodiu relacionamentos e aprisionou muita gente. A pornografia gera imagem cínica do amor e transmite uma visão da sexualidade como puro domínio do outro. Norman Doidge, psiquiatra canadense, tem tratado do tema com clareza. Mostrou o que acontece no cérebro do consumidor assíduo de pornografia. A repugnância inicial aos conteúdos pornográficos, fruto dos naturais filtros morais, vai cedendo espaço ao acostumamento. O usuário demanda uma dose cada vez maior e mais “sofisticada” para obter os mesmos resultados. É a espiral da dependência. E dela brotam terríveis patologias sociais: a violência, o abuso sexual, pedofilia.

Frequentes denúncias de pedofilia na internet demostram que a rede se está transformando no principal meio de aliciamento e exploração sexual de crianças. A situação é grave. E exige uma forte autocrítica. A culpa é de todos nós -governantes, formadores de opinião e pais de família-, que, num exercício de anticidadania, aceitamos que o país seja definido mundo afora como o paraíso do sexo fácil, barato, descartável. É triste, para não dizer trágico, ver o Brasil ser citado como um oásis excitante para os turistas que querem satisfazer suas taras e fantasias sexuais com crianças e adolescentes.

Os problemas levantados pelo mau uso da internet, embora gravíssmos, são infinitamente menores que os benefícios trazidos por esse notável canal de aproximação dos povos, de democratização dos conhecimentos e de globalização da solidariedade. Seus desvios não serão resolvidos por meio de ineficazes tutelas governamentais. Na verdade, a internet salienta uma nova realidade: chegou para todos, sobretudo para a família e para os educadores, a hora da liberdade e da responsabilidade..

As cidades estão à deriva

As pautas não estão dentro das redações. Elas gritam em cada esquina. É só pôr o pé na rua e a reportagem salta na nossa frente. Essa percepção, infelizmente, é a que mais falta aos jornais. Os diários perderam o cheiro do asfalto, o fascínio da vida, o drama do cotidiano.

O valor do jornalismo depende de uma providência muito simples: sair às ruas, fazer reportagem. Só isso. Você, amigo leitor, tem ido ao centro antigo de São Paulo? Faça o teste. É um convite à depressão. É uma cidade assustadora: edifícios pichados, prédios invadidos, gente sofrida e abandonada, prostituição a céu aberto, zumbis afundados no crack, uma cidade sem alma e desfigurada pelas cicatrizes da ausência criminosa do poder público. São Paulo foi demitida por seus governantes. E nós, jornalistas, precisamos mostrar a realidade. Não podemos ficar reféns das assessorias de marketing e das maquiagens que falam de uma revitalização que só existe no papel. Temos o dever de pôr o dedo na chaga. Fazer reportagem. Escancarar as contradições entre o discurso vazio e a realidade cruel. Basta percorrer três quarteirões. As pautas estão quicando na nossa frente.

O prefeito de São Paulo, Bruno Covas, não está seguindo as pegadas de seu saudoso avô. O governador Mário Covas, temperamental e briguento, era um apaixonado por São Paulo. Deixou forte marca e bela herança. Bruno, não. Parece ausente da administração. A zeladoria é uma piada. A cidade está suja, esburacada, maltratada. De repente o prefeito desencantou. Acordou com uma ideia delirante: transformar o Minhocão em parque suspenso. O corredor, importantíssimo, liga a Zona Oeste à Zona Leste de São Paulo. O caos previsível não tem problema. O importante é ter vitrine marqueteira. O prefeito está aquecendo as turbinas para a próxima eleição. Alguém dúvida que a intervenção urbana tem razões eleitorais bem calculadas?

Os jornais precisam fazer o contraponto. Jornalismo é isso: mostrar a vida, com suas luzes e suas sombras. São Paulo, a cidade mais rica do país e um dos maiores orçamentos públicos, é um retrato de corpo inteiro da falência do Estado. Também o Brasil está na banguela. O novo governo federal está apalpando o tamanho do estrago, o peso da herança deixada por anos de incompetência e corrupção. Merece o tradicional voto de confiança. Bolsonaro passou pela primeiro teste de opinião pública. A pesquisa CNT/MDA mostrou que ele está firme e forte. Seu desempenho no cargo foi aprovado por 57,5%, percentagem um pouco superior à dos votos que teve no segundo turno (55%). Mas a imprensa não deve ter filtros seletivos. Precisa acompanhar e cobrar resultados.

As cicatrizes que desfiguram o rosto de São Paulo e do Brasil podem ser superadas. Dinheiro existe, e muito. Falta vergonha na cara, competência e um mínimo de espírito público.

Jornalismo é a busca do essencial, sem adereços, qualificativos ou adornos. O jornalismo transformador é substantivo. Sua força não está na militância ideológica ou partidária, mas no vigor persuasivo da verdade factual e na integridade da sua opinião. Façamos reportagem. Informação é arma da cidadania..