Empoderamento feminino e santidade

O Jornalismo é movido pelo extraordinário, pelo curioso, pelo episódio inusitado que, não poucas vezes, grita ao nosso lado. Mas para ouvi-lo é preciso descer à arena, ir ao combate à procura dos fatos que mereçam ser contados.

A vida felizmente é mais rica e, muitas vezes, aí, o espetacular não é definido unicamente pelos critérios de noticiabilidade. Ao nosso lado, todos os dias, transitam um incalculável número de heróis anônimos que, sem receberem uma fagulha da pirotecnia midiática, luzem por si só. Suas histórias permanecem ocultas, desconhecidas pelo grande público. Mas, ao seu redor a vida prospera. Sem que percebam, cumprindo com fidelidade seus compromissos cotidianos, tocam e, deixam por herança, algo realmente esplêndido.

Esplêndida assim foi a vida de Guadalupe Ortiz de Landázuri, uma mulher que, movida pela consciência sobre o papel feminino na sociedade, colocou-se à frente de seu tempo. Fiel do Opus Dei falecida em 1975, ela é a primeira entre os membros leigos da Prelazia a subir aos altares. A cerimônia de beatificação ocorreu no dia 18, em Madri, sua cidade natal.

A história de Guadalupe parece-me ganhar maior relevância num momento em que a bandeira do empoderamento feminino tremula alto e ali, com razão, deve permanecer. Seu vigor vanguardista, a fez buscar novos desafios em ambientes geralmente pouco favoráveis. Na década de 1930, quando as vozes feministas ainda não ressoavam nas ruas da tradicionalíssima Europa, ela ingressou na universidade. Um projeto, em si, ousado, dado que, na época, as mulheres representavam apenas 14% do total de alunos matriculados em cursos superiores na Espanha. Mas o arrojo de Guadalupe foi além. Escolheu a graduação de Ciências Químicas quando mais da metade das estudantes optava pelo curso de Filosofia e Letras. Estava numa turma predominantemente masculina, na qual, dos 70 inscritos, apenas 5 eram mulheres. Finalizou o doutorado em 1965, foi docente, pesquisadora e catedrática.

Nessa época, quando a perspectiva da emancipação feminina causava estranheza e desconfiança em alguns, São Josemaría já sonhava e fazia sonhar com o dia em que as mulheres da Prelazia estariam à frente de escolas agrícolas, onde se ensinariam ofícios às trabalhadoras do campo, de clínicas médicas, de editoras de livros, de instituições universitárias. Insistia também que a seção feminina do Opus Dei deveria ter autonomia para dirigir suas próprias iniciativas apostólicas.

Não há como negar que vivemos em um mundo doente. Construímos -você e eu- uma sociedade movida pela aparência, pelo postiço. E nunca tivemos rodeados de tanta depressão e angústia, de tanta amargura e desgosto. Gente de todas as idades atingidas pela praga moderna de uma vida sem sentido.

Arrisco-me dizer que o remédio para a imensa maioria dos casos é aterrissar na vida real. É saudável entender que nossas jornadas não estão, nem nunca estarão, recheadas de momentos e feitos espetaculares. O amor ao ordinário nos abrirá o caminho para o extraordinário. Assim como fez Guadalupe..

Glamourização ideológica das drogas

Ruy Castro, o brilhante autor de O Anjo Pornográfico e Chega de Saudade, livros obrigatórios para quem gosta de um belo texto, costuma acertar no alvo. Em sua coluna na Folha de S.Paulo, mais uma vez, foi preciso, corajoso e politicamente incorreto. Ao comentar a Política Nacional de Drogas do governo que investirá na abstinência do usuário, em vez da redução de danos, Castro fechou com a proposta. Armado de uma sinceridade afiada, fruto da experiência vivida e sofrida, não faz concessões.

Considera um equívoco, marca registrada da política de redução de danos, a referência aos usuários cujo grau de dependência seja mais baixo. “Na condição de dependente químico que se tratou há 31 anos e tem se mantido à distância dos produtos, aprendi, comigo mesmo e com usuários e dependentes com quem convivi, que as duas categorias não formam uma mesma pessoa. Um usuário pode passar a vida usando sua droga em quantidade razoável para seu organismo -e apenas para este- sem se tornar dependente. Mas, se a dependência se instalar -ou seja, se o organismo passar a exigir a droga para se manter estável-, não haverá mais possibilidade de autocontrole”. E conclui, carregado de realismo e com uma chispa de ironia: “Bater papo com o terapeuta no consultório e continuar bebendo ou cheirando só fará bem ao terapeuta”. É isso aí. Rigorosamente.

Transcrevo o depoimento de um adicto recuperado. Ele fala com a força e a sinceridade de quem esteve no fundo do poço: “Sou filho único. Talvez porque meus pais não puderam ter outros filhos, me cercavam de mimos e realizavam todas as minhas vontades. Aos 12 anos comecei a fumar maconha, aos 17 comecei a cheirar cocaína. E perdi o controle. Fiz um tratamento psiquiátrico, fiquei nove meses tomando medicamentos e voltei a fumar maconha. Nessa época já cursava Medicina e convenci meus pais de que a maconha fazia menos mal que o cigarro comum. Meus argumentos estavam alicerçados em literatura e publicações científicas. Eles mal sabiam que estavam sendo enganados, pois, além de cheirar, também passei a injetar cocaína e dolantina, que é um opiáceo. Sofri uma overdose e somente não morri porque estava dentro de um hospital, que é o meu local de trabalho”.

“Após esta fatalidade”, continua, “decidi me internar numa comunidade terapêutica e hoje, graças a Deus, estou sóbrio. O uso moderado de maconha sempre acabava em drogas injetáveis. Somente a sobriedade total, inclusive do álcool, me devolveu a qualidade de vida que não pretendo trocar nem por uma simples cerveja ou uma dose de uísque” ( A.S.N., médico, ex-interno da Comunidade Terapêutica Horto de Deus, Taquaritinga).

Observa-se, na contramão da realidade, um crescente movimento a favor da descriminalização das drogas, sobretudo da maconha. Bandeira frequentemente agitada em certos setores do entretenimento e em alguns redutos de profissionais da saúde pública, a descriminalização não ajudará nada. Ao contrário.

A prevenção e a recuperação, guindadas à prioridade da Política Nacional de Drogas, merecem o apoio de todos nós..

Informação versus fake news

Proliferam notícias falsas nas redes sociais. Todos os dias. São compartilhadas acriticamente com a compulsão de um clique. Fazem muito estrago. Confundem. Enganam. Desinformam. A mentira, por óbvio, precisa ser enfrentada. O antídoto não é o Estado. É a poderosa força persuasiva do conteúdo qualificado. É preciso apostar na qualidade da informação. As rápidas e crescentes mudanças no setor da comunicação puseram em xeque os antigos modelos de negócios. A dificuldade de encontrar um caminho seguro para a monetização dos conteúdos multimídia e as novas rotinas criadas a partir das plataformas digitais produzem um complexo cenário de incertezas. Vivemos um grande desafio e, ao mesmo tempo, uma baita oportunidade.

É preciso pensar, refletir duramente sobre a mudança de paradigmas, uma vez que a criatividade e a capacidade de inovação -rápida e de baixo custo- serão fundamentais para a sobrevivência das organizações tradicionais.

Mas é preciso, previamente, fazer uma autocrítica corajosa a respeito do modo como nós, jornalistas e formadores de opinião, vemos o mundo e da maneira como dialogamos com ele.

Antes da era digital, em quase todas as famílias existia um álbum de fotos. Lembram disso? Lá estavam as nossas lembranças, os nossos registros afetivos, a nossa saudade. Muitas vezes abríamos o álbum e a imaginação voava. Era bem legal.

Agora fotografamos tudo e arquivamos compulsivamente. Nosso antigo álbum foi substituído pelas galerias de fotos de nossos dispositivos móveis. Temos overdose de fotos, mas falta o mais importante: a memória afetiva, a curtição daqueles momentos. Algo análogo, muito parecido mesmo, se dá com o consumo da informação. Navegamos freneticamente no espaço virtual. Uma enxurrada de estímulos dispersa a inteligência. Ficamos reféns da superficialidade. Perdemos contexto e sensibilidade crítica. Penso que há uma crescente nostalgia de conteúdos editados com rigor, critério e qualidade e ética.

Jornalismo sem alma e sem rigor. É o dignóstico de uma perigosa doença que contamina redações, afasta consumidores e escancara as portas para os traficantes da mentira. O leitor não sente o pulsar da vida. As reportagens não têm cheiro do asfalto.

Politização da informação, distanciamento da realidade e falta de reportagem. Eis o tripé que corrói a credibilidade. A informação não pode ser processada em um laboratório sem vida. Falta olhar nos olhos das pessoas, captar suas demandas legítimas. Gostemos ou não delas. A velha e boa reportagem não pode ser substituída por torcida.

É preciso recuperar o entusiasmo do “velho ofício”. É urgente investir na formação e qualificação dos profissionais. O jornalismo não é máquina, embora a tecnologia ofereça um suporte importantíssimo. O valor dele se chama informação de alta qualidade, talento, critério, ética. O consumidor precisa sentir que o jornal é parceiro na sua aventura cotidiana. Fake news se combate com informação..

Imprensa diante de governos disruptivos

A política brasileira está sendo sacudida por uma mudança cultural que, lá fora e aqui, está transformando e subvertendo antigos modelos e estruturas de poder. Partidos e políticos tradicionais vão sendo substituídos por outsiders. Multiplicam-se as surpresas. O fenômeno revela o esgotamento das ideologias dominantes e uma clara mudança do pêndulo da história. Segundo lideranças da política de sempre, a eleição de Bolsonaro só se explica pela presença de um forte sentimento antipetista. A interpretação é verdadeira. Mas só em parte.

Jair Bolsonaro, com suas virtudes e defeitos, soube captar o pulsar profundo da sociedade. O Brasil real estava algemado pela interdição da ideologia. Sua mensagem -na política, na economia, na segurança pública, na defesa da família e dos valores- foi ao encontro de um sentimento latente na alma nacional. Isso explica boa parte do seu desempenho. Sem dinheiro, sem partido, sem televisão e sem apoio mediático, Bolsonaro transformou-se num fenômeno eleitoral. Passou como um tanque e arrasou o antigo mapa do poder: grandes partidos encolheram, velhos caciques foram pulverizados, antigas fontes desapareceram e a esquerda está literalmente no córner.

As redes sociais tiveram papel decisivo. Bolsonaro falou diretamente com o eleitorado. Rompeu a intermediação das empresas de comunicação. Agora, sentado na cadeira presidencial, continua na mesma toada. A perplexidade é grande. Alguns vislumbram nas idas e vindas do presidente, nas suas declarações polêmicas e provocativas, no seu modo aparentemente atordoado de dialogar com o Congresso, uma evidência de seu despreparo.

No entanto, Bolsonaro está nas manchetes, nas páginas de política e nas discussões mediáticas. É estrela. Criticado ou apoiado. Todos os dias. Isso é ruim ou bom para o seu governo? É incompetência ou é jogada ensaiada? Será que tudo isso, aparentemente desconexo e incompreensível, faz parte de um jogo estudado, manifestação de uma estratégia pensada e implementada? O que parece bagunça e impulsividade, algo que incomoda e irrita, não estará no cerne de um novo estilo de fazer política? É cedo para chegar a uma conclusão. Mas é preciso refletir.

As polêmicas públicas de Bolsonaro com Rodrigo Maia acabaram produzindo um saldo interessante: o estranhamento terminou em abraços, o receio de que a reforma da previdência fosse para o brejo uniu divergências, o empresariado saiu da zona de conforto e foi à luta.

Não estaremos diante de um governo que acredita na polêmica e confronto como forma de superação de situações cristalizadas pela força da ideologia? Não sei. Estou, a cada dia, evitando pendurar etiquetas simplistas numa realidade complexa. Será que os generais do núcleo duro do governo, reconhecidamente sérios e competentes, entrariam numa roubada? Tenho procurado pensar e refletir. Com esforço de compreensão da realidade, com cabeça aberta e sem preconceitos. É preciso ponderar e refletir, que são a proposta deste artigo..

Algema pornográfica

A pornografia é negócio poderoso, crescente e devastador. Causa dependência, desestrutura a afetividade, desestabiliza a família e passa pesada fatura no campo da saúde mental. Mas o mais grave, de longe, é a estratégia de “mesmitificação”do material pornográfico. Eliminou-se o carimbo de proibido. Superou-se o constrangimento da vergonha. Deu-se ao conteúdo pornográfico um toque de leveza, de algo sexy, divertido e moderno. Na prática, no entanto, a pornografia tem a garra da adicção e as consequências psicológicas, afetivas e sociais do vício mais cruel.

A Universidade de Princeton promoveu importante seminário interdisciplinar sobre o impacto da pornografia na sociedade atual. A partir da divulgação de dados, pesquisas e informações compartilhadas no encontro, as pesquisadoras norte-americanas Mary Eberstadt e Mary Anne Layden produziram um relatório publicado no livro “Os custos sociais da pornografia: oito descobertas que põem fim ao mito do ‘prazer inofensivo'”, lançado no Brasil pela editora Quadrante, São Paulo. Recomendo a leitura.

Na era da internet a pornografia invadiu computadores, implodiu relacionamentos e aprisionou muita gente. A pornografia gera imagem cínica do amor e transmite uma visão da sexualidade como puro domínio do outro. Norman Doidge, psiquiatra canadense, tem tratado do tema com clareza. Mostrou o que acontece no cérebro do consumidor assíduo de pornografia. A repugnância inicial aos conteúdos pornográficos, fruto dos naturais filtros morais, vai cedendo espaço ao acostumamento. O usuário demanda uma dose cada vez maior e mais “sofisticada” para obter os mesmos resultados. É a espiral da dependência. E dela brotam terríveis patologias sociais: a violência, o abuso sexual, pedofilia.

Frequentes denúncias de pedofilia na internet demostram que a rede se está transformando no principal meio de aliciamento e exploração sexual de crianças. A situação é grave. E exige uma forte autocrítica. A culpa é de todos nós -governantes, formadores de opinião e pais de família-, que, num exercício de anticidadania, aceitamos que o país seja definido mundo afora como o paraíso do sexo fácil, barato, descartável. É triste, para não dizer trágico, ver o Brasil ser citado como um oásis excitante para os turistas que querem satisfazer suas taras e fantasias sexuais com crianças e adolescentes.

Os problemas levantados pelo mau uso da internet, embora gravíssmos, são infinitamente menores que os benefícios trazidos por esse notável canal de aproximação dos povos, de democratização dos conhecimentos e de globalização da solidariedade. Seus desvios não serão resolvidos por meio de ineficazes tutelas governamentais. Na verdade, a internet salienta uma nova realidade: chegou para todos, sobretudo para a família e para os educadores, a hora da liberdade e da responsabilidade..

As cidades estão à deriva

As pautas não estão dentro das redações. Elas gritam em cada esquina. É só pôr o pé na rua e a reportagem salta na nossa frente. Essa percepção, infelizmente, é a que mais falta aos jornais. Os diários perderam o cheiro do asfalto, o fascínio da vida, o drama do cotidiano.

O valor do jornalismo depende de uma providência muito simples: sair às ruas, fazer reportagem. Só isso. Você, amigo leitor, tem ido ao centro antigo de São Paulo? Faça o teste. É um convite à depressão. É uma cidade assustadora: edifícios pichados, prédios invadidos, gente sofrida e abandonada, prostituição a céu aberto, zumbis afundados no crack, uma cidade sem alma e desfigurada pelas cicatrizes da ausência criminosa do poder público. São Paulo foi demitida por seus governantes. E nós, jornalistas, precisamos mostrar a realidade. Não podemos ficar reféns das assessorias de marketing e das maquiagens que falam de uma revitalização que só existe no papel. Temos o dever de pôr o dedo na chaga. Fazer reportagem. Escancarar as contradições entre o discurso vazio e a realidade cruel. Basta percorrer três quarteirões. As pautas estão quicando na nossa frente.

O prefeito de São Paulo, Bruno Covas, não está seguindo as pegadas de seu saudoso avô. O governador Mário Covas, temperamental e briguento, era um apaixonado por São Paulo. Deixou forte marca e bela herança. Bruno, não. Parece ausente da administração. A zeladoria é uma piada. A cidade está suja, esburacada, maltratada. De repente o prefeito desencantou. Acordou com uma ideia delirante: transformar o Minhocão em parque suspenso. O corredor, importantíssimo, liga a Zona Oeste à Zona Leste de São Paulo. O caos previsível não tem problema. O importante é ter vitrine marqueteira. O prefeito está aquecendo as turbinas para a próxima eleição. Alguém dúvida que a intervenção urbana tem razões eleitorais bem calculadas?

Os jornais precisam fazer o contraponto. Jornalismo é isso: mostrar a vida, com suas luzes e suas sombras. São Paulo, a cidade mais rica do país e um dos maiores orçamentos públicos, é um retrato de corpo inteiro da falência do Estado. Também o Brasil está na banguela. O novo governo federal está apalpando o tamanho do estrago, o peso da herança deixada por anos de incompetência e corrupção. Merece o tradicional voto de confiança. Bolsonaro passou pela primeiro teste de opinião pública. A pesquisa CNT/MDA mostrou que ele está firme e forte. Seu desempenho no cargo foi aprovado por 57,5%, percentagem um pouco superior à dos votos que teve no segundo turno (55%). Mas a imprensa não deve ter filtros seletivos. Precisa acompanhar e cobrar resultados.

As cicatrizes que desfiguram o rosto de São Paulo e do Brasil podem ser superadas. Dinheiro existe, e muito. Falta vergonha na cara, competência e um mínimo de espírito público.

Jornalismo é a busca do essencial, sem adereços, qualificativos ou adornos. O jornalismo transformador é substantivo. Sua força não está na militância ideológica ou partidária, mas no vigor persuasivo da verdade factual e na integridade da sua opinião. Façamos reportagem. Informação é arma da cidadania..

Verdadeira Mulher Maravilha

Frequentemente, a informação veiculada na mídia produz frio na alma. A sociedade desenhada no noticiário parece refém do vírus da morbidez e da síndrome do egoísmo. Crimes, aberrações e desvios de conduta desfilam no noticiário das metrópoles. A sociedade, encurralada pelo atrevimento da maldade, já encara a violência como parte da paisagem urbana.

A mídia tem sido acusada de estar dominada pela patologia da má notícia. Catástrofes e tragédias excitam pautas e ganham o status de manchete de primeira página. Queixam-se os leitores de que, frequentemente, iniciativas bem-sucedidas têm recebido pouco destaque ou, quando muito, migram para o lusco-fusco das páginas interiores. Essa tendência, no entanto, acaba de ser derrubada pela coragem solidária de uma mulher.

Quem viu a força da vendedora Leiliane Rafael da Silva, 28 anos, que venceu o metal da fuselagem do caminhão que se chocou com o helicóptero em estava o jornalista Ricardo Boechat, não poderia imaginar que ela também luta pela própria vida. Leiliane recebeu o diagnóstico de Malformação Arteriovenosa (MAV) em novembro de ano passado, pouco mais de um mês após dar à luz Lívia, hoje com 4 meses. “O primeiro hospital chegou a chamar minha família e falar que eu tinha um tumor cerebral maligno e que eu não tinha chance de vida”, disse à reportagem do G1.

Pois bem, amigo leitor, enquanto alguns marmanjos dominados pela compulsão digital fotografavam a tragédia, Leiliane foi lá. Resolveu. Salvou a vida do caminhoneiro. A cena, emocionante, foi imortalizada pelo ilustrador Angelo France. O artista não conseguia apagar a cena da vendedora socorrendo o motorista de caminhão. A força da mulher foi o que o inspirou para desenhar. Além da ilustração, ele fez o seguinte post no Instagram: “Minha visão da imagem marcante no momento do acidente que vitimou o jornalista Ricardo Boechat e o piloto do helicóptero, Ronaldo Quattrucci. Heróis reais existem! Leiliane, que assistiu de perto a queda do helicóptero, desce da moto e corre para salvar a vida do motorista do caminhão atingido no acidente. Uma mulher forte, de coragem, que arriscava sua vida enquanto os homens a sua volta apenas se importavam em filmar ao invés de ajudar. Parabéns Leiliane! Verdadeira heroína!” Leiliane viu o desenho e agradeceu a homenagem. “Ficou lindo, perfeito. Mas eu não sou heroína, não sou Mulher Maravilha, acho que isso foi um pouco exagerado”, disse.

A notícia positiva, tão verdadeira quanto a informação negativa, é uma surpresa. Acabamos de redescobrir que a sociedade aparentemente anestesiada pela violência não perdeu a capacidade de se comover com um instantâneo de generosidade. O comportamento, não obstante a cativante simplicidade da jovem vendedora, merece um registro.

Para nós, profissionais de um jornalismo tão habituado à rotina do noticiário negativo, o episódio tem algo de inusitado. Leiliane deixa um belo legado de coragem e solidariedade para seus filhos. E para nós, jornalistas, mostrou que a grandeza humana bem vale uma matéria..

A imprensa e Jair Bolsonaro

Bolsonaro não gosta da imprensa. Acredita, equivocadamente, que as redes sociais são a bola da vez. Não percebe que agenda pública continua sendo determinada pelas empresas jornalísticas tradicionais. O que você conversa com os amigos, goste ou não, foi sussurrado por uma pauta de jornal. As redes sociais reverberam, multiplicam. Mas o pontapé inicial é dado por um repórter. Bolsonaro precisa conversar com a mídia. As críticas aos governantes, mesmo injustas, fazem parte do jogo. Não é possível recriar uma versão indesejável do “nós contra eles”.

Mas a imprensa, reconheçamos, está uma arara com o estilo agressivo do presidente, sobretudo dos seus filhos. Por isso, tem sido exagerada e superficial no seu olhar crítico a um governo que está dando os primeiros passos. Um governo só pode ser avaliado depois que se constate se as coisas melhoraram ou pioraram em consequência das decisões. É necessário superar o clima de briga de adolescentes e encontrar o ponto de equilíbrio: respeito e independência.

Governo e imprensa não podem ter uma relação promíscua. É salutar certa tensão entre as instituições. Mas precisam conversar. São peças essenciais da estrutura democrática. Espero que Bolsonaro desça do palanque e assuma o papel de presidente de todos os brasileiros. Espero, também, que nós, jornalistas, deponhamos as armas da militância e façamos jornalismo.

Jornalismo é a busca do essencial, sem adereços, adjetivos ou adornos. O jornalismo transformador é substantivo. Sua força não está na militância ideológica ou partidária, mas no vigor persuasivo da verdade factual e na integridade da sua opinião. A credibilidade é o somatório de uma longa e transparente coerência. A ferramenta de trabalho dos jornalistas é a curiosidade. A dúvida. Há um ceticismo ético, base da boa reportagem investigativa. É a saudável desconfiança que se alimenta de uma paixão: o desejo dominante de descobrir e contar a verdade.

Outra coisa, bem diferente, é o jornalismo de suspeita. O profissional suspicaz não tem ” olhos de ver”. Não admite que possam existir decência, retidão, bondade. Tudo passa por um crivo negativo que se traduz numa incapacidade crescente de elogiar o que deu certo. O jornalista não deve ser ingênuo. Mas não precisa ser cínico. Basta ser honrado, trabalhador, independente.

O culto à frivolidade e a submissão à ditadura dos modismos estão na raiz dos problemas. Vivemos sob o domínio do politicamente correto. E o dogma do politicamente correto não deixa saída: de um lado, só há vilões; de outro, só se captam perfis de mocinhos. E sabemos que não é assim. A vida tem matizes.

Finalmente, precisamos ter transparência no reconhecimento de nossos equívocos. Uma imprensa ética sabe reconhecer os seus erros. As palavras podem informar corretamente, denunciar situações injustas, cobrar soluções. Mas podem também esquartejar reputações, destruir patrimônios, desinformar. Reconhecer o erro, limpa e abertamente, é o pré-requisito da qualidade e, por isso, um dos alicerces da credibilidade..